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sexta-feira, 19 de junho de 2009

Testamento

"Minhas posses materiais são poucas e:

Deixo para você. Uma coleira mastigada em uma das extremidades, faltando dois botões, uma desajeitada cama de cachorro e uma vasilha de água que se encontra rachada na borda.

Deixo para você a metade de uma bola de borracha, uma boneca rasgada que você vai encontrar debaixo da geladeira, um ratinho de borracha sem apito que está debaixo do fogão da cozinha e uma porção de ossos enterrados no canteiro de rosas e sob o assoalho da minha casinha. Além disso, eu deixo para você a memória, que, aliás, são muitas.

Deixo para você a memória de dois enormes e meigos olhos cor de mel, de um nariz molhado e de choradeiras atrás da porta.

Deixo para você uma mancha no tapete da sala de estar junto à janela, quando nas tardes de inverno eu me apropriava daquele lugar, como se fosse meu, e me enrolava feito uma bolinha para pegar um pouco de sol.

Deixo para você um tapete esfarrapado em frente de sua cadeira preferida, o qual nunca foi consertado com o tipo de linha certo… Isso é verdade. Eu o mastiguei todinho, quando ainda tinha cinco meses de idade, lembra-se?

Deixo para você as memórias da primeira surra que levei quando comi seu celular e também todo o meu esquecimento…

Deixo para você um esconderijo que fiz no jardim debaixo dos arbustos perto da varanda da frente, onde eu costumava me esconder do sol nos dias de verão. Ele deve estar cheio de folhas agora e por isso talvez você tenha dificuldades em encontrá-lo. Sinto muito!

Deixo também só para você, o barulho que eu fazia ao sair correndo sobre as folhas de abril, quando vagabundeávamos pelo sítio.

Deixo ainda, a lembrança de momentos pelas manhãs, quando saíamos junto pela margem das lagoas do condomínio e você me dava aqueles biscrocks coloridos. Recordo-me das suas risadas, porque eu não consegui alcançar aquele coelho impertinente.

Deixo-lhe como herança minha devoção, minha simpatia, meu apoio quando as coisas não andavam bem, meus latidos quando você levantava a voz aborrecida… E minha frustração por você ter ralhado comigo todas as vezes que eu colocava o nariz debaixo da cauda.

Eu nunca fui à igreja, nunca escutei um sermão, e sem ter dito sequer uma palavra em minha vida, deixo para você lições de paciência, de tolerância, de amor e compreensão.Sua vida tem sido mais rica porque eu vivi."


* Texto de Frank Reinshstein

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Para minha Companheira*

"De vez em quando escuto alguém me dizer:
- Pára com isso! é apenas um cão!!
Ou então:
- Mas é muito dinheiro para se gastar com ele! Ele é apenas um cão!
Essas pessoas não sabem do caminho percorrido, do tempo gasto ou dos custos que significam “apenas um cão”.
Muitos dos meus melhores momentos me foram trazidos por “apenas um cão”.
Por muitas horas em minha vida, minha única companhia era “apenas um cão”. E eu não me senti desprezado.
Muitas das minhas tristezas foram amenizadas por “apenas um cão”.
E naquele dias sombrios, o toque gentil de “apenas um cão” me deu conforto e motivo para seguir em frente.
E se você também é daqueles que pensam que ele é “apenas um cão”, com certeza deve entender bem expressões como “apenas um amigo” ou “apenas um nascer de sol”, “apenas uma promessa”...
“Apenas um cão” deu a minha vida a verdadeira essência da amizade, da confiança, da pura e irrestrita felicidade.
“Apenas um cão” faz aflorar a compaixão e paciência que fazem de mim uma pessoa melhor.
Por causa de “apenas um cão”, eu me levanto cedo, faço caminhadas e olho com mais amor para o futuro.
Porque pra mim, e pras pessoas que como eu, não se trata de “apenas um cão”, mas da incorporação de todos os sonhos e esperanças do futuro, das lembranças afetuosas do passado, da pura felicidade do momento presente.
“Apenas um cão” faz brotar o que há de bom em mim e dissolve meus pensamentos e as preocupações do meu dia.
Eu espero que, algum dia, as pessoas entendam que não é “apenas um cão”, mas aquilo que me torna mais humano e me permite não ser “apenas um homem”.
Então, da próxima vez que você escutar a frase “é apenas um cão”, apenas sorria para estas pessoas porque elas apenas não entendem..."





*Homenagem a minha Fanny que está a 14 dos seus 15 anos de vida aqui em casa e que agora, na sua velhice, mostra pra mim o quanto é importate e o quanto eu vou sentir sua falta depois de sua partida. Esteve internada 2 dias tomando soro, em substituição à hemodiálise dos humanos e provavelmente fará isto até o fim de seus dias em momentos cada vez menos espaçados.


Que não haja sofrimento, principalmente para ela...